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A tecnologia da Sony que previu a era da alta definição e marcou o Montreux de 1991

Recentemente, a Sony completou 80 anos, e poucos nomes na história provaram ter tanto impacto em setores tão variados quanto a gigante japonesa. Ao olhar para sua trajetória, a contribuição da empresa para a tecnologia de produção audiovisual se destaca de maneira especial.

Este artigo foca em um aspecto dessa vasta contribuição. No final dos anos 80, a Sony, em colaboração com a emissora japonesa NHK, apresentou ao mundo uma visão impressionante do que viria a ser a transmissão em alta definição, oferecendo experiências notáveis, como a gravação do célebre festival de música Montreux em 1991, utilizando a tecnologia HDVS System.

No vídeo disponível, pode-se observar a apresentação da icônica cantora Chaka Khan interpretando seu clássico “Through The Fire” no festival. Acompanhada por uma banda de músicos talentosos — Paul Jackson Jr. na guitarra, Nathan East no baixo, Steve Ferrone na bateria, Greg Phillinganes no teclado e Ray Cooper na percussão —, a qualidade nítida da imagem impressiona, especialmente tendo em vista que se trata de uma gravação dos anos 90.

À primeira vista, pode-se supor que se trata de uma gravação em película restaurada em alta qualidade, semelhante a relançamentos de filmes clássicos em 4K.

Entretanto, essa impressão não é verdadeira.

As imagens foram captadas graças à tecnologia HDVS System da Sony, cuja história remonta a dez anos antes do evento em Montreux.

Imagens de tirar o fôlego

Em abril de 1981, durante uma reunião internacional de engenheiros de televisão em Argel, a Sony surpreendeu os participantes com imagens muito mais nítidas do que qualquer transmissão comercial existente. A base dessa inovação veio da NHK, que dedicou anos desenvolvendo o padrão Hi-Vision, baseado em 1.125 linhas de varredura. Para efeito de comparação, a televisão convencional da época utilizava sistemas com apenas 525 linhas.

Dessas 1.125 linhas, 1.035 formavam a imagem, enquanto o restante transmitia instruções invisíveis para o equipamento. A Sony atuou como parceira da NHK na criação dos dispositivos que permitiram essa captação. O passo comercial foi dado em 1984, quando a Sony lançou a câmera HDC-100 e o gravador HDV-1000.

Por trás da qualidade excepcional, havia uma infraestrutura complexa para a época. Enquanto uma transmissão NTSC convencional utilizava em torno de 6 MHz, o sistema Hi-Vision/MUSE da NHK operava com aproximadamente 27 MHz de largura de banda para transmissão de vídeo analógico em alta definição. O sistema ainda utilizava técnicas complexas de compressão analógica para viabilizar a transmissão. Em cenas de muito movimento, parte da resolução era temporariamente reduzida, uma das limitações naturais dessa primeira geração de HDTV.

10 Kg de puro progresso tecnológico

A HDC-100 pesava cerca de 10 kg, resultado da utilização de três tubos Saticon, capazes de oferecer contraste e detalhes excepcionais, mas que apresentavam problemas de superaquecimento. O modelo HDC-300 tentou aprimorar essa situação e o HDC-500, lançado em 1988, trocou os tubos por sensores CCD, tornando o equipamento mais leve e estável, mantendo a resolução.

O gravador HDV-1000 utilizava fita de uma polegada em uma velocidade tão alta que cada rolo proporcionava menos de uma hora de material, exigindo um processador separado para reconstruir e estabilizar o sinal.

Até aquele momento, a Sony já havia contribuído significativamente para a evolução dos equipamentos audiovisuais, tendo lançado o primeiro videocassete em preto e branco do Japão em 1958 e o primeiro videocassete colorido do mundo em 1971.

O custo para embarcar nessa onda de inovação, através do HDVS System, não era baixo: o conjunto custava US$ 1,5 milhão em 1985. Os primeiros compradores foram laboratórios médicos, centros aeroespaciais e estúdios de animação, e não estúdios de TV.

Do HDVS ao 35mm

Não demorou até que várias produções audiovisuais começassem a considerar o HDVS. Em alguns casos, era curioso observar que a obra era capturada em HDVS e posteriormente transferida para película 35 mm. Um exemplo foi a produção italiana “Julia and Julia”, de 1987, que tinha o cantor Sting no elenco principal.

Esse filme é frequentemente destacado como o primeiro longa-metragem gravado inteiramente com a tecnologia HDVS, utilizando a câmera Sony HDC-300, e posteriormente, o material foi transferido para 35 mm pela Technicolor em Roma.

Ainda nesse mesmo ano, a banda Genesis, sob a batuta de Phil Collins, registrou as últimas noites da turnê “Invisible Touch” com câmeras HDVS.

Tech demos para impressionar

A promoção da tecnologia também incluiu numerosos vídeos curtos que mostravam imagens capturadas pelo sistema HDVS. Os mais conhecidos eram os vídeos que a Sony chamou de “Metamorphosis”, um nome que refletia bem a transformação que essa tecnologia trazia à transmissão.

Nesse período, havia três principais formas de armazenar o conteúdo do HDVS: fita de rolo (HDV-1000), fita de cartucho (HDV-10 “UniHi”) e discos de 12 polegadas no estilo LaserDisc (HDL-5800 / HDL-2000).

Abaixo, um dos vídeos dessas demonstrações, segundo o usuário que o publicou no YouTube, foi extraído diretamente de um dos discos no estilo LaserDisc. “Esses discos HDVS podiam armazenar no máximo 15 minutos de vídeo em formato componente de alta definição bruto e sem compressão”, explica.

Confira também algumas outras demos de HDVS:

Chegamos ao Montreux

1991 foi o 25º aniversário do Montreux Jazz Festival, e Claude Nobs, fundador do evento em 1967, tinha um objetivo claro para essa edição especial: assegurar que a gravação utilizasse as técnicas mais avançadas disponíveis. Não havia melhor escolha do que o HDVS para isso.

As 20 apresentações noturnas foram capturadas por cinco câmeras HDVS, com todo o sinal de vídeo e áudio sendo processado em caminhões externos da Sony estacionados ao lado do evento.

O áudio foi registrado em dois gravadores Sony PCM-3348 de 48 faixas, com 40 canais diretos dos microfones de palco, além de 8 canais ambientais captados com microfones AKG C24 e B&K espalhados pelo auditório.

O aparato estava à altura do line-up que passou pelo evento, que incluiu Sting, a banda Toto (um dos últimos shows com o excepcional baterista Jeff Porcaro, falecido em 1992) e Miles Davis, que se apresentou com uma orquestra sob a regência de Quincy Jones.

O show do Toto foi lançado oficialmente em 2016 como “Live at Montreux 1991”, disponível em diversos formatos, incluindo CD, DVD e Blu-ray. A mixagem ficou sob responsabilidade do guitarrista Steve Lukather e do engenheiro de som Niko Bolas, que declarou na época do lançamento: “Vocês verão uma versão da banda que nunca mais existirá e que nunca poderia existir novamente.”

A Sony também aproveitou o festival para testar um conversor PAL, que convertia o sinal HDVS de 1.125 linhas em 625 linhas para as emissoras europeias ainda operando com o padrão convencional.

Por que o mundo não adotou o HDVS?

O padrão Hi-Vision/HDVS nunca foi adotado fora do Japão como sistema de transmissão. A União Europeia e os EUA encararam isso como um padrão controlado pelo Japão, o que poderia representar uma ameaça. Era evidente que havia também um “tempero” geopolítico na rejeição ao formato, além da incompatibilidade com as infraestruturas locais.

Outro fator relevante é que o HDVS ainda se baseava em tecnologia analógica, justamente em um momento de transição para soluções digitais de vídeo e compressão. Apesar disso, o HDVS continuou a ser utilizado profissionalmente durante os anos 80 e 90, especialmente em produções especiais, demonstrações técnicas e aplicações de broadcast premium. O padrão evoluiu para formatos digitais como o HDCAM e o HDCAM SR nos anos 2000.

Mesmo que o HDVS tenha sido um fracasso comercial, ele antecipou muitos dos conceitos que associamos hoje com as transmissões modernas de TV. Felizmente, muitos registros incríveis, como os do festival de Montreux, estão disponíveis para apreciação, permitindo que todos possam admirar esse avanço quase inacreditável na captação audiovisual do final dos anos 80 e 90.

Membro da Super Select:

Marcelo Vangrey

A minha jornada como Vangrey no universo dos games começou em 1994 com um Mega Drive e o incrivel Mortal Kombat 2! Seguida pelo Super Nintendo no universo dos lendários cartuchos 16in1 com Top Gear e companhia! Em 1998, conquistou seu primeiro PLAY 1 novamente com Mortal Kombat, dessa vez o MK4, e a partir daí, continuou explorando diversas plataformas. Comprando e vendendo, já passei por: Game Boy Color, PS2, PSP, PS3, Nintendo DS, 3DS, Xbox 360, PS4, PS4 Pro, PS5, Nintendo Switch 1 e 2, e pra finalizar - o Steam Deck =)

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