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Apple e a Lições do Japão Pós-Guerra: O Estoque Como Desperdício e a Busca pela Perfeição

Em 1998, Tim Cook ingressou na Apple com uma missão definida: eliminar o estoque, não apenas reduzi-lo. Em apenas sete meses, ele diminuiu o ciclo de inventário de 30 dias para impressionantes 6. E isso foi apenas o começo! Em dois anos, conseguiu levar esse período a apenas 2 dias. Para se ter uma ideia do feito, a Coca-Cola, uma gigante com décadas de experiência em logística, levava cerca de 90 dias para girar seu estoque. Além desses cortes, Cook fechou metade dos 19 armazéns da Apple e reduziu o número de fornecedores de mais de 100 para apenas 24.

O método que guiou essa transformação não teve origem no Vale do Silício, mas sim em Nagoya, no Japão pós-guerra, nas fábricas da Toyota.

### O Problema Era Aritmético

O engenheiro industrial Taiichi Ohno, na década de 1940, enfrentava um desafio: a baixa produtividade. Em 1945, um trabalhador americano produzia cerca de nove vezes mais do que um japonês. O Japão havia saído da Segunda Guerra com fábricas danificadas, escassez de matéria-prima e custos elevados para armazenar peças que poderiam nunca ser utilizadas. Portanto, a criação de estoques grandes, à moda americana, era impraticável.

Com a eclosão da Guerra da Coreia em 1950, os Estados Unidos precisavam urgentemente de veículos militares e endereçaram grandes encomendas ao Japão, as chamadas tokuju, totalizando cerca de US$ 329 milhões, o que representava 40% do valor total das exportações japonesas naquele ano. A Toyota se destacou no atendimento a esse pedido, melhorando rapidamente sua performance, um período considerado “ajuda divina” por especialistas. Junto com os recursos financeiros, chegaram especialistas americanos que ensinaram técnicas de produção em massa e controle de qualidade, estabelecendo as bases para a nova abordagem que Ohno estava prestes a criar.

### A Solução Estava em um Supermercado Americano

Durante uma visita aos Estados Unidos nos anos 50, Ohno encontrou a resposta a seu dilema em um local inesperado: os supermercados. Ele observou que as prateleiras eram reabastecidas apenas quando os produtos se esgotavam. Essa lógica, onde o estoque se ajusta à demanda, foi transposta para a produção: uma peça só entrava na linha de montagem quando realmente era necessária. Assim nasceu o Just-in-Time (JIT).

Dentro da Toyota, esse conceito se tornou um dos pilares do Toyota Production System (TPS), junto ao jidoka, que envolve automação com supervisão humana. Juntos, esses princípios visavam eliminar desperdícios em sete categorias: superprodução, tempo ocioso, excessos de transporte, defeitos, estoques desnecessários, movimentação excessiva e processamento desnecessário.

### O Executivo que Odiava Prateleiras

Tim Cook levou essa abordagem a um novo patamar na Apple. Ele comparou componentes eletrônicos a laticínios, que têm data de validade, e preferia medir o inventário em horas, não em dias. Para Cook, o estoque não era um recurso, mas um sinal de falha. Com essa mentalidade, ele transformou a Apple de uma empresa com operações fragmentadas em um modelo logístico referência global.

### Como a Apple Usa o Método Hoje

Hoje, quando a Apple anuncia um novo iPhone, as peças já estão em trânsito ou prontas para montagem. O segredo por trás dessa eficiência não é apenas planejamento rigoroso, mas também a configuração física do sistema.

A Apple intimou seus parceiros a criar um modelo de hub, com fábricas de moldes e placas lógicas localizadas ao lado das linhas de montagem da Foxconn em Zhengzhou. As peças são puxadas diretamente dessas instalações vizinhas, enviadas para a linha de produção assim que um pedido é feito, sem necessidade de um armazém intermediário. Para assegurar que os componentes continuem fluindo, Cook trocou o transporte de Macs por navio pelo de avião, garantindo entregas em apenas dois dias após a saída da Ásia.

Outro aspecto importante desse modelo é o controle direto sobre a maquinaria. A Apple projeta e adquire as máquinas usadas na produção, incluindo impressoras de circuitos e equipamentos CNC, instalando-os nas fábricas dos fornecedores. Esses equipamentos são operados por parceiros, mas sob supervisão rigorosa da Apple, que provê treinamento e exige margens baixas dos fornecedores, com centenas de engenheiros da empresa supervisionando o processo.

### O Ponto Frágil do Sistema

O JIT exige que cada elo da cadeia opere sem falhas. Em outubro de 2022, essa vulnerabilidade se tornou evidente quando a fábrica da Foxconn em Zhengzhou, responsável por parte significativa da produção do iPhone 14, sofreu um colapso operacional devido a um surto de Covid-19. Isso levou a um êxodo em massa de trabalhadores, dificultando o reabastecimento das linhas.

A Foxconn abriu uma campanha emergencial de recrutamento, recebendo mais de 100 mil inscrições, mas falhou em cumprir os contratos com os novos trabalhadores. O cenário culminou em protestos, e as perdas estimadas foram de 6 milhões de unidades do iPhone 14 Pro e Pro Max no quarto trimestre de 2022, além de bilhões de dólares em vendas comprometidas.

Esse incidente acelerou um movimento que já havia sido iniciado: a Apple começou a pressionar seus fornecedores a expandirem suas operações na Índia e no Vietnã. Com um compromisso de US$ 500 bilhões em investimentos nos Estados Unidos, parte do American Manufacturing Program, a empresa busca estabelecer redundância sem abandonar a lógica JIT, uma contradição desafiadora que ainda está sendo resolvida.

### Conclusão

A cadeia de suprimentos de um iPhone envolve componentes de diversos países. Em 2024, 150 dos 187 principais fornecedores da Apple ainda tinham fábricas na China. Manter esse sistema sincronizado é uma operação constante e desafiadora, mas essencial para o sucesso da Apple e sua capacidade de entregar produtos de forma eficiente.

Membro da Super Select:

Marcelo Vangrey

A minha jornada como Vangrey no universo dos games começou em 1994 com um Mega Drive e o incrivel Mortal Kombat 2! Seguida pelo Super Nintendo no universo dos lendários cartuchos 16in1 com Top Gear e companhia! Em 1998, conquistou seu primeiro PLAY 1 novamente com Mortal Kombat, dessa vez o MK4, e a partir daí, continuou explorando diversas plataformas. Comprando e vendendo, já passei por: Game Boy Color, PS2, PSP, PS3, Nintendo DS, 3DS, Xbox 360, PS4, PS4 Pro, PS5, Nintendo Switch 1 e 2, e pra finalizar - o Steam Deck =)

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